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Reações gastrointestinais e respiratórias começaram a ser notadas quando seu filho ingeriu alimentos e produtos compostos por proteínas encontradas no leite. Ao procurar o médico, o diagnóstico foi dado: a criança possui um tipo de alergia conhecida como APLV (alergia à proteína do leite de vaca)1,2.

Mais comum do que se imagina, dados apontam que entre 2 e 3% das crianças com idade inferior a 3 anos no Brasil são portadoras desta condição13.

Imagem licenciada - Adobe

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Muito diferente da intolerância à lactose, a APLV se caracteriza como uma reação do sistema imunológico quando há o consumo de proteínas do leite de vaca, sendo que a mínima quantidade desta proteína já é capaz de desencadear quadros de sintomas cutâneos, como descamação e coceira na pele, bem como problemas intestinais e respiratórios, sem contar a temida anafilaxia.

Para lidar com a APLV e propiciar melhor qualidade de vida às crianças acometidas desta alergia, é possível lançar mão de algumas estratégias; elas irão ajudar tanto os pais quanto as crianças, que terão minimizados os impactos da APLV em seu dia a dia.

Confira a seguir dicas para enfrentar a APLV e aprenda a lidar melhor com a alergia ao leite de vaca em crianças. Além das dicas deste artigo, se você se preocupa com a inclusão da criança alérgica em diversos ambientes sociais compostos por não alérgicos, não deixe de ler este artigo sobre o tema em nosso portal.

Dicas para enfrentar a APLV

Em casa

No ambiente doméstico é necessário fazer algumas mudanças quando se tem o diagnóstico de crianças com APLV. Com a restrição alimentar do bebê, toda família acaba “entrando na onda”.

Até mesmo porque, se o bebê ainda mama no peito, será necessário que a mãe faça a dieta de restrição, de modo a não mais “transmitir” as proteínas que fazem mal à criança através do próprio leite.

Entre alguns dos cuidados que devem ser levados em consideração, é importante não apenas traçar um plano alimentar que restrinja a inclusão de alimentos que tenham proteínas do leite de vaca, como também ficar de olho na limpeza dos utensílios utilizados na alimentação, haja vista que eles, apesar de limpos, podem funcionar como depósito de substâncias capazes de desencadear a alergia nas crianças2.

Para evitar este tipo de contaminação cruzada, você pode isolar estes objetos e usá-los exclusivamente para alimentos e produtos que não contenham leite e a proteína do leite3. Isto inclui desde o copo do liquidificador, até a esponja de lavar a louça.

Outra dica importante é ficar atento ao pronto-socorro mais próximo. Não se trata de criar uma ansiedade ou pensar no pior, apenas devemos levar em conta que ingestões acidentais acontecem. Saber a localização do hospital mais próximo agilizará a situação em casos de urgência. Anote todos os telefones e endereços dos hospitais mais próximos e deixe-os com quem, por ventura, estiver tomando conta da criança na sua ausência.

Deixe sempre à mão toda a medicação a ser usada em caso de emergência, juntamente com instruções claras do uso da mesma. Por vezes, a criança apresenta reações graves nos momentos em que estão com pessoas sem a mesma prática que os pais para atender.

É interessante também a confecção de um diário alimentar, onde serão registrados: todos os alimentos ingeridos pela criança4, os remédios administrados (e o horário em que a criança foi medicada) e a ocorrência de reações alérgicas (anote os sintomas). Ter esse registro diário facilitará a identificação do alimento causador da reação alérgica. Importante: leve o diário nas consultas com o médico ou nutricionista.

Um dos maiores objetivos para a dieta da criança com APLV é manter o crescimento da criança de forma saudável. Assim, lembre que é fundamental procurar sempre avaliar com esses profissionais (pediatra e nutricionista) a necessidade de reposições, principalmente do cálcio, e como administrar a inserção de novos alimentos.

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É em casa também que a atitude positiva em relação a alergia deve ser estimulada. Isso irá ajudar seu filho na questão da autoestima. Neste sentido, é importante não dramatizar, mas sim encarar a questão de maneira natural, superando os obstáculos e propiciando à criança qualidade de vida e inclusão social. Conversar com os pequenos de maneira aberta e sincera, expor os motivos de não poder comer algo, explicar de forma simples por que algumas crianças sofrem alergia, e se colocar no lugar das pessoas com alergia à proteína de leite de vaca é fundamental para lidar com esta problemática5.

Na escola

Sabemos que a escola é um dos primeiros contatos que temos com a vida externa, fora do aconchego do lar. E é exatamente na escola que os ensinamentos e conversas que você teve com a criança serão colocados em prática. É preciso ter em mente que é possível conviver da melhor maneira possível com crianças que não são acometidas de APLV.

Ao matricular seu filho na escola, é necessário desde o início preencher uma ficha médica, detalhando a questão da alergia, quais são os sintomas, bem como o contato do médico e como proceder na ocorrência de uma crise6.

Consulte seu médico sobre a possibilidade de montar um kit com a medicação a ser usada em caso de uma crise. Junto com a medicação deve estar detalhada a dose e forma de administração. Quando for incluir este kit no material da criança, faça uma reunião com os educadores que vão lidar com ela, para que eles se sintam seguros no uso dessa medicação. Para crianças com risco de crise anafilática, é fundamental que esse kit contenha uma caneta injetora de adrenalina.

Tais informações preenchidas pelos pais a respeito dos filhos devem ser de fácil acesso pelos profissionais da escola, caso contrário serão ineficazes e poderão gerar incidentes. Portanto, averigue junto à direção da escola a respeito do armazenamento destas informações.

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Como a criança é nova no ambiente escolar, é normal que poucas pessoas saibam que ela necessita de uma dieta restritiva, o que pode acarretar em uma série de equívocos e levar ao consumo de alimentos com a proteína do leite. Portanto, até que todos do grupo escolar estejam cientes, uma boa dica é manter nos pertences da criança frases como “ Não me ofereça alimentos que contenham leite” ou “Sou alérgico a ‘x’ alimento”, etc. Este procedimento simples irá ajudar a evitar problemas.

Para mostrar de forma ainda mais enfática a importância de conversar com os educadores para que eles fiquem de olho no momento em que as crianças estão fazendo a sua refeição e também para que eles estejam preparados a agir em caso de necessidade, digamos que o lanche de um coleguinha contenha alérgenos com os quais seu filho não pode ter contato; inocentemente, o coleguinha resolve experimentar o lanche do seu filho e faz isso com as mãozinhas sujas do seu próprio lanche, deixando resíduos de sua comida no prato errado. Na próxima colherada que seu filho der pode ser que uma crise alérgica venha a ocorrer7.

Mas deixe claro que, independente do risco de contaminação cruzada, seu filho nunca deve ser separado para fazer as refeições.

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O mais prático a se fazer é preparar o lanche ou refeição do seu filho para que ele leve à escola. Como a merenda, via de regra, não possui um cardápio exclusivo para crianças com APLV e com alergia ao leite, esta é a maneira mais segura de garantir a diminuição das chances de ele sofrer alguma reação.

Peça aos educadores da escola que notifiquem quando estiver programado algum evento festivo, onde serão servidas guloseimas às crianças. Assim, sempre será possível enviar uma versão segura para ser oferecida para seu filho. Haverá inclusive ocasião para que ele possa oferecer e compartilhar de forma segura suas guloseimas com os colegas e equipe da escola.

Devemos considerar também outro ponto relevante no tocante às atividades escolares. O simples uso de determinado tipo de material escolar pode causar alergia, uma vez que ela se dá não somente pelo consumo, mas também pela inalação e contato.

Giz de cera e massinha de modelar, bem comuns nas primeiras séries de escola, são as campeãs neste sentido. Para evitar que ocorra a reação alérgica, peça para a escola informar a marca dos produtos a serem utilizados. Se necessário, peça as embalagens dos mesmos e procure entrar em contato com a empresa que produz o material e questione sobre todas as substâncias utilizadas no produto para evitar o processo alérgico.

Adotar medidas preventivas como estas, conversar com outras mães e toda a comunidade escolar, irá ajudar e envolver a todos na questão da APLV, o que irá otimizar a inclusão da criança no contexto escolar e evitar situações de risco para a saúde de seu filho na escola.

A Legislação nas Escolas

Existe uma Lei Federal8 que regulamenta que escolas públicas devem oferecer um atendimento especial (em termos de alimentação) para crianças portadoras de restrições, e certamente alergias alimentares e a APLV se incluem dentro desse quadro.

Mesmo com a existência da lei, sabemos que a maioria das escolas brasileiras não está preparada para oferecer uma alimentação especial para alérgicos em suas dependências, seja por falta de cultura sobre o assunto, falta de treinamento ou falta de informação sobre o potencial da gravidade de uma reação alimentar em crianças alérgicas.

Por todos esses fatores, a recomendação que se pode fazer – depois de um diálogo franco e aberto com a direção da escola – é manter a dieta da criança sob controle levando a comida pronta de casa. Se necessário, podem ser enviados até mesmo os utensílios de uso pessoal da criança (prato, talheres, canecas, etc.). Sabemos de vários casos de reações alérgicas ocorridos em escolas despreparadas para lidar com esse tema; portanto, para não correr riscos, previna-se tomando todos os cuidados necessários com a alimentação da criança.

Na viagem

Nada como viajar de férias, certo? Mas quando se trata de viajar com uma criança diagnosticada com APLV, a preocupação de muitas mães é grande. No entanto, seguindo algumas dicas e procedimentos, sua viagem terá tudo para ser bem-sucedida!

Antes de viajar, ao escolher o hotel ou pousada para a estadia, verifique a localização do hospital mais próximo, ou postos de saúde. Anote contatos e telefones. Na viagem, carregue alimentos de acordo com a dieta restritiva da criança, haja visto que nem sempre será fácil encontrar onde comprar. Comida congelada é uma ótima alternativa neste sentido9.

No caso de crianças que já passaram por algum caso de anafilaxia em função da APLV, recomenda-se levar um kit com a caneta injetora de adrenalina (devidamente receitada e recomendada por um especialista – um médico alergista que acompanhe o caso da criança alérgica). O kit com a caneta de adrenalina deve ser levado na bagagem de mão acompanhado da receita. Durante todos os passeios da viagem, o kit nunca deve estar longe da criança e o ideal é que crianças mais velhas já sejam acostumadas a levar seu próprio kit na mochila ou em uma pochete na cintura. Para crianças mais novas, os pais devem levar sempre a caneta de adrenalina.

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Verificar com o médico alergista quais outros medicamentos podem ser usados no caso de uma emergência e incluir neste mesmo kit.

Se alimentar fora de casa sempre é um desafio para crianças alérgicas, mas não é tão difícil tornar isso uma rotina tranquila, sem stress, o que é muito importante nas viagens, principalmente de férias, não? Veja mais dicas sobre como se preparar para se alimentar fora de casa neste artigo em nosso portal.

Leitura dos rótulos

Quando somos notificados de que a criança possui a APLV, começamos a desenvolver diversas habilidades, no intuito de proporcionar melhor qualidade de vida para a criança. Uma destas habilidades é a leitura de rótulos. Afinal, como não é qualquer alimento que as crianças podem ingerir, tampouco manusear, no caso de brinquedos, material escolar, etc., começamos a nos ater aos rótulos para identificar as substâncias contidas e se elas são ou não permitidas para as crianças.

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Este “trabalho extra” está chegando ao fim, pelo menos no que diz respeito aos alimentos, uma vez que estamos próximos à data em que a nova regra da ANVISA (RDC n. 26/2015) que obriga a identificação da presença de alergênicos nos rótulos entrará em vigor10. A resolução passa a valer em Julho de 2016.

Enquanto isso não ocorre, devemos fazer a leitura e identificar item por item nos rótulos a composição dos alimentos.

Produtos proibidos

Pessoas diagnosticadas com a APLV, como sabemos, sofrem uma série de restrições alimentares. Veja a seguir alguns dos ingredientes que não devem ser consumidos e que você precisa identificar nos rótulos dos produtos11:

  • Caseína
  • Caseína hidrolisada
  • Caseinato de cálcio
  • Caseinato de potássio
  • Caseinato de amônia
  • Caseinato de magnésio
  • Caseinato de sódio (ou estabilizantes com caseinato de sódio)
  • Chantilly (pode conter caseinato)
  • Creme de leite
  • Soro de leite deslactosado/desmineralizado
  • Gordura de leite
  • Coalhada
  • Proteína láctea
  • Proteína de leite hidrolisada
  • Whey Protein (proteína do soro de leite em inglês)
  • Lactoalbumina
  • Lactoglobulina
  • Fosfato de lactoalbumina
  • Lactato
  • Lactoferrina
  • Lactulose
  • Lactulona
  • Leite (integral, semidesnatado, desnatado, em pó, condensado, evaporado, sem lactose, maltado, desidratado, fermentado, etc.)
  • Leitelho
  • Nata
  • Nougat
  • Soro de leite
  • Fermento lácteo
  • Gordura de manteiga, óleo de manteiga, éster de manteiga
  • Composto lácteo, mistura láctea
  • Lactose (é o açúcar do leite e não é alergênico, mas se tiver lactose no alimento provavelmente terá a proteína).

Todos esses ingredientes se referem às diferentes proteínas do leite. Os alergênicos são exatamente essas proteínas que devem ser evitadas em qualquer quantidade, pois mesmo traços podem causar reações em algumas crianças. No entanto, se houver “lactose” presente no rótulo de qualquer produto pode haver também a proteína e apenas por isso estes produtos também devem ser evitados11.

Há alguns ingredientes que podem indicar presença de leite e derivados e que merecem atenção. São eles12:

  • Corante/saborizante (flavorizante) caramelo
  • Saborizantes (flavorizantes) naturais ou artificiais
  • Sabor artificial de manteiga
  • Nougat
  • Sabor de açúcar mascavo
  • Chocolate

Já os ingredientes seguintes NÃO possuem leite12:

  • Lactato de cálcio
  • EstearoilLactilato de cálcio
  • Lactato de sódio
  • Cremor de Tártaro
  • Manteiga de cacau
  • EstearoilLactilato de sódio
  • Leite de coco

Os alimentos seguintes são fonte de cálcio e podem, por vezes, ajudar a substituir o leite1:

  • Agrião
  • Rúcula
  • Espinafre
  • Brócolis
  • Couve
  • Ameixa seca
  • Gergelim
  • Amêndoas
  • Aveia
  • Sardinha

Fundamental se lembrar que: a expressão “Sem Lactose” no rótulo não garante que o produto é seguro e será isento das proteínas do leite. Lactose é lactose e proteína é proteína.

Importante: mesmo informado sobre os alimentos que podem substituir elementos do leite, para garantir um bom equilíbrio nutricional, nenhum alimento deve ser introduzido na dieta de crianças alérgicas sem o acompanhamento de um nutricionista e de um médico alergista.

Seguindo essas dicas você conseguirá proporcionar mais qualidade de vida ao seu filho e lidar melhor com a APLV. O desafio é sempre imenso à primeira vista, mas com determinação conseguimos fazer a adaptação e chegar a uma meta de inclusão com saúde!

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Agora, conte para nós: que dicas, ideias e macetes você costuma utilizar no tratamento e convívio com a APLV?

Referências

1 Eu Posso Isso! – Saiba Mais Sobre a Alergia à Proteína do Leite de Vaca
2 Alergia ao Leite de Vaca – Alergia Alimentar Dieta em Família
3 BabyCenter Brasil – Manual da mãe de um bebê APLV
4 Mundo Sem Leite – Diário Alimentar
5 Macetes de Mãe – Alergia Alimentar: Adaptação, Inclusão, Superação
6 Folha Viva Vitória – APLV: 6 Dicas para a Sala de Aula
7 Eu Posso Isso! – Como Enviar o Filho Alérgico Para a Escola Com Segurança
8 Governo Brasileiro – Lei 12982 de 28 de Maio de 2014 e Lei 11947 de 16 de Junho de 2009
9 Alergia ao Leite de Vaca – Convivendo com Alergia – Material de Apoio
10 ANVISA – Resolução – RDC Nº 26, de 02 de Julho de 2015
11 Alergia a Leite – Rótulos e Produtos Proibidos
12 Sem Lactose – Lista de Produtos para Alérgicos às Proteínas do Leite
13 ASBAI – Guia prático de diagnóstico e tratamento da Alergia às Proteínas do Leite de Vaca mediada pela imunoglobulina E