Alergias e Intolerâncias • Alergias e Intolerâncias

O glúten é um composto proteico encontrado em cereais como trigo, centeio, aveia e cevada. Entre eles, o trigo é o mais consumido mundialmente e chega a fazer parte das principais refeições e, para algumas pessoas, até mesmo de todas as refeições.

Seja na forma de pães, massas, biscoitos, salgados, tortas, cereais matinais ou mesmo bebidas como cervejas, o contato com o glúten aumentou drasticamente nos últimos 40 anos juntamente com o consumo de carboidratos 1.

Coincidência ou não, após tal mudança no hábito alimentar, houve um aumento de casos das doenças relacionadas ao glúten: a doença celíaca, a sensibilidade ao glúten não celíaca (ou intolerância ao glúten) e a alergia ao trigo 2.

Embora o termo “alergia ao glúten” não seja tecnicamente adequado, muitas pessoas portadoras de doença celíaca ou outros tipos de sensibilidade ao glúten o utilizam por facilitar a explicação sobre sua condição. Mas você sabe qual é a diferença entre essas condições?

Doença Celíaca, Intolerância ao Glúten e Alergia ao Trigo

Doença Celíaca

Muitos indivíduos celíacos acabam se referindo à sua doença como “alergia ao glúten”, termo que não é tecnicamente correto, porém, exime o portador de longas explicações acerca da sua condição.

No caso da doença celíaca, existe uma resposta autoimune ao glúten quando este entra em contato com o intestino. Aqui, os sintomas desencadeados são relacionados à morfologia e digestão, podendo o indivíduo desenvolver diarreia, danos à parede do intestino, síndrome de má absorção e, consequentemente, desnutrição – diferente dos sintomas da alergia ao trigo.

Intolerância ao Glúten

Também chamada de sensibilidade ao glúten não-celíaca 2, a intolerância ao glúten ocorre quando as possibilidades de doença celíaca e de alergia ao trigo foram descartadas. Ou seja, o médico analisou todos os sintomas e exames clínicos, e então diagnostica uma sensibilidade ou intolerância à proteína, provavelmente devido à exposição frequente ao trigo e demais cereais.

A intolerância é decorrente da má digestão do glúten, que é composto de uma mistura de proteínas longas (gliadina e glutenina), cujos restos podem se alojar na parede do intestino. É considerada uma condição mais recente 6, cuja prevalência está entre 6 a 10% da população e a manifestação são sintomas intestinais e que melhoram, ou mesmo desaparecem, após a retirada do glúten, mesmo em indivíduos com intestino saudável e que não apresentaram nos exames clínicos os mesmos anticorpos (antiendomísio, antigliadina e antitransglutaminase) 7 presentes nos celíacos.

Alergia ao Trigo

A alergia ao trigo não deve ser confundida com a doença celíaca ou com a intolerância ao glúten8, ou mesmo com o termo “alergia ao glúten”. A alergia alimentar é uma reação exagerada, imediata ou de curto prazo, do sistema imunológico a uma proteína específica e normalmente é acompanhada por sintomas nas vias respiratórias ou na pele, como por exemplo, rinite e urticária, podendo chegar até a uma anafilaxia (distúrbio grave na circulação sanguínea e na oxigenação).

Ela ocorre da seguinte forma: o glúten é uma molécula complexa, formada por diversas unidades proteicas. No trigo, por exemplo, as principais são a glutenina e a gliadina. Quando entram em contato com água, essas proteínas se relacionam e formam uma rede complexa, que é o glúten. O organismo de algumas pessoas considera essa proteína uma ameaça e neste caso, a gliadina pode ser o “gatilho” que reage com a imunoglobulina E (IgE), causando uma reação alérgica típica que desencadeia sintomas como rinite, asma, urticária, e em alguns casos mais graves, anafilaxia 3,4,5.

A alergia ao trigo é a mais comum entre as pessoas, uma vez que este é o cereal mais consumido. No entanto, não significa que elas também terão alergia aos outros cereais que contêm glúten.

O tratamento é o mesmo para todas?

Os que apresentam alergia ao trigo ou intolerância ao glúten são beneficiados com uma dieta isenta de glúten, semelhante aos celíacos. Assim, muitas pessoas confundem facilmente as três condições.

É importante destacar que a aveia em si não contém glúten, mas como normalmente ela é processada nos mesmos equipamentos que o trigo e outros cereais, ocorre uma contaminação cruzada. Para as pessoas com intolerância, ela pode não desencadear sintomas. No entanto, aqueles que são portadores da doença celíaca ou alergia ao trigo deverão excluir o cereal da dieta por precaução.

Referências

1Malhotra, A. Saturated fat is not the major issue. BMJ 2013; 347.

2Sapone A, Bai JC, Ciacci C, Dolinsek J, Green PH, Hadjivassiliou M, Kaukinen K,Rostami K, Sanders DS, Schumann M, Ullrich R, Villalta D, Volta U, Catassi C,Fasano A. Spectrum of gluten disorders: consensus on new nomenclature and classification. BMC Med 2012, 10:13.

3Ebisawa M et al. Clinical utility of IgE antibodies to omega – 5 gliadin in the diagnosis of wheat allergy: a pediatric multicenter challenge study. Int Arch Allergy Immunol. 2012; 158(1): 71 – 6. 5.

4Nilsson N et al. Combining analyses of basophil allergen threshold sensitivity, CD-sens and IgE antibodies to hydrolysed wheat, w-5 gliadin and timothy grass enhances the prediction of wheat challenge outcome. Int Arch Allergy Immunol. 2013 (in press). 6.

5Park HJ et al. Diagnostic Value of the Serum-Specific IgE Ratio of omega-5 Gliadin to Wheat in Adult Patients with Wheat-Induced Anaphylaxis. Int Arch Allergy Immunol. 2012; 157(2)): 147 – 50.

6Biesiekierski JR, Newnham ED, Irving PM, Barrett JS, Haines M, Doecke JD, Shepherd SJ, Muir JG, Gibson PR. Gluten causes gastrointestinal symptoms in subjects without celiac disease: a double-blind randomized placebo-controlled trial. Am J Gastroenterol. 2011 Mar;106(3):508-14.

7PORTARIA MS/SAS Nº 307, de 17 de setembro de 2009. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Celíaca.

8 http://www.cureceliacdisease.org/archives/faq/what-is-the-difference-between-gluten-intolerance-gluten-sensitivity-and-wheat-allergy