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O clássico “Um Conto de Natal”, de Charles Dickens é ambientado no gélido natal londrino e narra a estória de Ebenezer Scrooge, um idoso sovina e rabugento, que odeia o Natal e seu espírito de solidariedade e fraternidade. O final da obra-prima de Dickens é conhecido por todos: Scrooge, após receber a visita inesperada dos Espíritos do Natal do Passado, do Presente e do Futuro, decide reavaliar a sua postura em relação aos valores de solidariedade, ternura e afeto. Ao final, a obra simboliza a relevância da reflexão de nossas condutas em uma perspectiva temporal, bem como a eterna capacidade humana de renascimento e renovação.

Ao problematizar o tema do espírito de solidariedade natalino, a obra de Dickens permite-nos discutir o modo como o Natal pode se transformar em um espaço de exclusão para um grupo especial, as pessoas com alergia alimentar e suas famílias. De fato, para aproximadamente 220 a 520 milhões de pessoas no mundo que convivem com algum tipo de alergia alimentar. O Natal representa um momento de sentimentos paradoxais: de um lado, o compartilhamento da ceia natalina entre familiares e amigos simboliza os valores universais da esperança e prosperidade; doutro lado, para o alérgico e seus familiares,a ceia converte-se em um espaço de risco em razão da necessidade da adoção de uma dieta restritiva.

A despeito do discurso de fraternidade, os velhos costumes e hábitos natalinos, ao olvidar a diferença e especificidade alimentar de cada indivíduo, contribuem com a consolidação de uma tradição de exclusão, na qual a invisibilidade das pessoas com alergia alimentar constitui o principal mote natalino.

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Não se trata de desconstruir práticas culinárias centenárias, mas, ao contrário, promover um convite à experimentação de novos sabores, de modo a substituir os alimentos alergênicos por outros alimentos com funções similares. Com uma boa dose de acolhimento e uma pitada de criatividade, o panetone, a rabanada e os biscoitinhos natalinos podem ser compartilhados por todos, sem exceções.

A ideia central, portanto, é que um natal inclusivo – ou seja, um Natal que seja verdadeiramente acolhedor e solidário – depende da afirmação de uma cozinha inclusiva. Devemos, então, construir um novo olhar sobre a comida e o ato de cozinhar, no qual a inclusão se torne o principal ingrediente e o acolhimento o tempero indispensável. Se for verdade que a palavra natal surgiu do latim natalis e significa nascimento, é o momento, então, de fazer brotar um novo espírito de inclusão em nossas cozinhas.

Talvez, a irritabilidade crônica do velho Scrooge não era apenas fruto de seu sombrio temperamento, mas uma baita reação alérgica provocada pela ingestão do leite de vaca ou do trigo do panetone. Não se sabe, mas bem que poderia ser…

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Carla Maia

Idealizadora do site Menu Bacana – cozinha inclusiva, um espaço de luta pelo reconhecimento da diversidade alimentar por meio do compartilhamento de receitas recheadas de afeto.

 

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