Alergias e Intolerâncias • Alergias e Intolerâncias • Nutrição e Dietas

Muitas pessoas não toleram certos alimentos e os motivos podem ser diversos, mas os mais frequentes são por intolerâncias e alergias alimentares. Hoje em dia, a alimentação da população em geral é muito industrializada e usa muitos aditivos químicos, o que pode ser uma das causas do aumento dessas reações adversas aos alimentos. A mídia tem dado uma atenção maior ao assunto, o que é bom para aumentar o conhecimento pela população em geral em relação às alergias e intolerâncias alimentares, mas é importante ter sempre cuidado e verificar as fontes de informações, para saber se elas são realmente baseadas em estudos científicos.

É estimado que 1/4 da população já passou por um episódio de reação adversa a algum alimento, sendo que a alergia alimentar (AA) é o tipo que ocorre com mais frequência em crianças abaixo de 3 anos (10-15%), mas também ocorre em pessoas mais velhas (6-8%). São as mais estudadas pela frequência com que ocorre e pela severidade dos sintomas desencadeados com pouca quantidade do alimento (Sanchez, 2013), como a anafilaxia.

As alergias surgem de um grupo de 8 alimentos que são mais alergênicos (leite de vaca, trigo, ovo, amendoim, castanhas, peixes e frutos do mar), devido à sua composição altamente proteica. As intolerâncias podem surgir por um número muito maior de alimentos, dependendo da predisposição genética, frequência e quantidade de consumo, ou pela mucosa intestinal alterada.

Por que a incidência de alergia alimentar é maior?

As AAs são bem mais comuns entre crianças do que em adultos e geram um impacto social, financeiro e psicológico nestas famílias. Primeiro, porque não é sempre que o diagnóstico é feito na primeira consulta médica. Segundo, que as consequências do contato frequente com o alimento causador da alergia são: má absorção de nutrientes, baixo crescimento, diarreias e dores na criança. Terceiro, porque após chegar a um diagnóstico é preciso modificar muitos hábitos alimentares e familiares para evitar contato da criança com a proteína.

O aleitamento materno por menos de 6 meses e baixa condição econômica são os maiores fatores para o desenvolvimento de alergias em crianças até 3 anos de idade (Sanchez, 2013). Em lactentes o leite de vaca está envolvido em 80% dos casos e os riscos aumentam à medida que os alimentos consumidos pela população são cada vez mais processados.

Um estudo observacional foi realizado em 2010 por pediatras gastroenterologistas brasileiros durante 40 dias, em 5 regiões diferentes do país. Os pacientes tinham menos de 2 anos de idade e a prevalência de alergia à proteína do leite de vaca (APLV) foi de 5,4% e a incidência foi de 2,2% (Vieira, 2010).

Segundo a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), 350 mil crianças brasileiras possuem APLV, 6 a 8% apresenta alergias alimentares verdadeiras e entre os adultos essa porcentagem é de 2 a 3%.

Embora na maioria dos casos a APLV suma após certa idade (5 a 7 anos, geralmente), este período é muito importante no desenvolvimento infantil e todo cuidado deve ser tomado para diagnosticar corretamente e fazer um melhor acompanhamento nutricional nesses casos.

Intolerância alimentar é muito frequente?

Sugere-se que quase metade da população seja intolerante a algum alimento, pois, diferente da alergia, o componente causador da intolerância não ser precisa ser necessariamente uma proteína. Ela pode ser causada por defeitos nas enzimas (intolerância à lactose), por reações tóxicas (aditivos alimentares), metabólicas (aminoácidos) ou farmacológicas (teobromina do chocolate).

A Doença Celíaca é uma intolerância ao glúten que até poucos anos atrás não era muito conhecida – mesmo entre a classe médica. Em 2011, pesquisadores suecos e sul-africanos fizeram, pela primeira vez, um levantamento global indicando que 42 mil crianças morrem por ano por causa da doença – no Brasil esse número chega a 200.

Alguns estudos internacionais mostram que 1 a cada 100 pessoas no mundo seja celíaco e, por incrível que pareça, mais da metade dessas pessoas não sabem que são portadoras da doença. No Brasil faltam levantamentos estatísticos, mas em 2007, uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo, apontou que esse número é de 1 a cada 214 brasileiros.

Há muito debate e controvérsias sobre o assunto da intolerância à lactose. Alguns acreditam que até 70% dos brasileiros apresentam algum sintoma que pode ser relacionado à intolerância à lactose. Esta condição melhora com a simples retirada dos alimentos fontes de lactose (leite e derivados e vários produtos industrializados), mas todo o debate chama bastante atenção e gera muitas dúvidas. O que se sabe ao certo é que a maioria dos adultos no mundo (com exceção dos europeus e descendentes) tem a predisposição genética de parar a produção da enzima responsável pela digestão da lactose no organismo. Leia nosso artigo sobre o tema da Intolerância à Lactose para maiores informações.

O que fazer para diminuir os casos de reações alimentares?

Aleitamento materno exclusivo por, no mínimo, 6 meses e evitar oferecer alimentos potencialmente alergênicos (como leite de vaca, soja, etc.) para a crianças até 1 ano de idade são alguns cuidados importantes. A manutenção do aleitamente materno (embora não exclusivo) por mais que 6 meses também pode ajudar muito no desenvolvimento da criança. E durante a infância é fundamental evitar a introdução na dieta regular da criança de alimentos altamente industrializados e processados (com corantes, conservantes, aditivos químicos, altas taxas de açúcares, etc.). Se tiver dúvidas sobre a composição de um produto (presença de leite, glúten, ovos, soja, etc), pergunte e confira o rótulo atenciosamente. Leia nossa série de artigos sobre as alergias e intolerâncias mais comuns atualmente. Quanto mais informação, melhor.

Fontes:

Vieira MC, et al. A survey on clinical presentation and nutritional status of infants with suspected cow’ milk allergy. BMC Pediatrics 2010, 10:25.

Sánchez J, A. Sánchez. Epidemiology of food allergy in Latin America. Allergologia et Immunopathologia (Madrid), 2013.

Mattar R. Intolerância à lactose: mudança de paradigmas com a biologia molecular. Rev. Assoc. Med. Bras. vol.56 no.2 São Paulo  2010.

Alergia Alimentar. Associação Brasileira de Alergia e Imunologia.

No Brasil, 350 mil crianças têm alergia à proteína do leite de vaca. Reportagem Fantástico (Out/2014).

Intolerância à lactose atinge até 70% dos adultos brasileiros. Portal Bem estar.

Doença celíaca. Revista Veja.

Alimentos que mais causam alergia em crianças. Revista Viva Saúde (Dez/2014).

Como prevenir a alergia alimentar na infância. Revista Viva Saúde (Jan/2015)