Alergias e Intolerâncias • Alergias e Intolerâncias

A alergia alimentar é uma reação exacerbada do sistema imunológico a certos tipos de alimentos. Em geral, essa reação é imediata ou de curto prazo e ocorre logo após você ingerir um alimento específico. A reação ocorre quando seu sistema imunológico identifica por engano uma proteína do alimento como se fosse algo prejudicial. O corpo reage liberando histamina, agindo rápido na intenção de combater o “invasor”. A histamina é um mediador das respostas alérgicas que causa vasodilatação, aumento da permeabilidade vascular (edema) e contração da musculatura lisa (tanto brônquica como gastrointestinal).

Segundo o Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar de 2007, estima-se que 6% das crianças menores de 3 anos sejam alérgicas a algum alimento, enquanto que a prevalência em adultos é de 3,5% – números que ainda estão aumentando até os dias de hoje. 1 Nos Estados Unidos, uma pesquisa divulgada em 2011 constatou que cerca de 6 milhões de crianças americanas (8% da população menor de 18 anos) eram alérgicas a algum alimento. 2

Para algumas pessoas, a ingestão ou contato com uma pequena quantidade de um alimento pode desencadear sintomas como alterações digestivas, urticárias ou inchaço visível nas pálpebras, pele e lábios. Em outras, a reação alérgica pode ser mais intensa e grave, atingindo as vias respiratórias (“edema de glote”).

Normalmente, a alergia é a reação à proteína de algum alimento, como leite de vaca, trigo, ovo, amendoim, castanhas, peixes e frutos do mar. A herança genética, uma dieta com as proteínas alergênicas e a incapacidade do trato gastrointestinal em lidar com o nutriente são os fatores mais importantes para alguém desenvolver alergia alimentar.

O intestino imaturo e o sistema imunológico em formação se tornam os principais motivos de bebês e crianças menores de 3 anos serem a população mais suscetível às alergias alimentares.

Saiba mais sobre os alimentos mais alergênicos e onde eles se encontram!

Leite de Vaca

É um dos alimentos que mais causam alergias alimentares. Possui três principais alérgenos: caseína, alfa-lactoalbumina e beta-lactoglobulina. Rinite, coceiras na pele e distensões abdominais são os sintomas mais frequentes.

Para muitos bebês o leite de vaca é introduzido desde cedo em fórmulas infantis em substituição ao leite materno. Essa introdução prematura pode desencadear o processo alérgico em indivíduos predispostos. Recentemente, foi divulgado o dado de que no Brasil cerca de 350 mil crianças sofrem com alergia à proteína do leite de vaca, também conhecida como APLV. 3

Por ser fonte de cálcio, muitos se preocupam em repor o micronutriente. Se você necessita tirar o leite de vaca da dieta, pode acrescentar agrião, rúcula, espinafre, brócolis, couve, ameixa seca, gergelim, amêndoas e aveia, que são ricos em cálcio.

Preste atenção ao rótulo dos alimentos industrializados. Proteínas do soro do leite (whey protein) podem não conter caseína, mas contêm as outras proteínas e isso não vem descrito no produto.

Trigo

Esse alimento, que faz parte frequente da dieta da população brasileira, está presente em diversos produtos como pães, massas, bolos e biscoitos e contém uma série de proteínas identificadas como causadoras de alergia. 4

Entre estas proteínas, a omega-gliadina é uma das principais responsáveis pelas reações alérgicas mais severas, cujos sintomas podem incluir rinite, asma, urticária e até anafilaxia.

O glúten, que é um composto de proteínas encontrado no trigo, centeio e cevada, por sua vez é causador de vários tipos de hipersensibilidade não imediatas (como a doença celíaca), diferentes da alergia ao trigo. Embora o termo “alergia ao glúten” não seja tecnicamente adequado, muitas pessoas portadoras de doença celíaca ou sensibilidade ao glúten o utilizam para facilitar a explicação sobre sua condição. Há debates entre pesquisadores sobre a relação entre as condições de hipersensibilidade ao glúten e a alergia ao trigo. 5

Trataremos das condições de hipersensibilidade ao glúten em outro artigo em nosso site.

O trigo é fundamental para conferir textura, sabor e maciez aos produtos de panificação e massas. Mas hoje, a variedade de farinhas disponíveis no mercado é enorme e é possível substituí-lo. Você as encontra facilmente em lojas de produtos naturais e supermercados.

Ovo

A alergia ao ovo é muito frequente em crianças pequenas e ocorre principalmente por causa das proteínas da clara. Mais de 50% das crianças que apresentam dermatite atópica podem apresentar alergia à ovoalbumina, proteína que constitui 54% do total proteico da clara do ovo. 6

Por ser considerado um alimento quase completo, quando for necessário substituí-lo, é importante proporcionar à criança uma alimentação muito variada, rica em vegetais, frutas e outras fontes de proteínas, como carnes, aves, feijão e lentilha.

Em receitas de bolos e biscoitos, é possível substituir o ovo (ou a clara) por um gel feito a partir da semente de linhaça e outras opções, mas esse é um tema futuro que ainda abordaremos no blog.

Soja

Por ser um alimento amplamente cultivado no Brasil, ele acaba fazendo parte de diversos alimentos processados e da alimentação dos animais dos quais ingerimos a carne.

A alergia é mais frequente em crianças e a soja pode ser substituída por outros grãos, sem causar prejuízo nutricional. Molho shoyu, tofu e proteína texturizada são alguns dos produtos mais utilizados que contêm soja. Alguns chocolates contêm soja nos ingredientes, descrita como lecitina de soja, por isso leia atentamente os rótulos e não se acanhe em perguntar nas lojas de doces caseiros se existe soja na preparação.

Amendoim e Castanhas

É comum encontrar pessoas alérgicas ao amendoim sem ser a outras oleaginosas, como as castanhas. É um alimento com alto teor de proteínas, o que aumenta sua alergenicidade, mas que, se retirado da dieta, não causa prejuízo nutricional.

Assim como os amendoins, a alergia às castanhas (nozes, avelã, castanha-do-Brasil) é mais comum em adultos e pode provocar graves reações, como anafilaxia.

Além de retirá-los da dieta, observe a composição dos doces e sempre pergunte ao confeiteiro se ele realmente não utilizou esses alimentos na receita.

Peixes e Frutos do Mar

Alergia a peixes e frutos do mar (camarão, siri, caranguejo, lagosta, lula, marisco, mexilhão) são frequentes em crianças e adultos. Especialistas sugerem que a ingestão pela mãe durante a gestação e a amamentação pode sensibilizar mais facilmente o bebê. 7

Embora os sintomas sejam semelhantes aos outros alimentos, estão entre os que ocasionam as reações mais severas. Podem ocorrer inchaço nos lábios, faringe, laringe (edema de glote), urticária (erupções vermelhas na pele) e coceiras.

Além do cuidado de não ingerir alimentos processados feitos com peixes e frutos do mar, questione em restaurantes e lanchonetes se a batata ou a mandioca, por exemplo, foram fritas no mesmo óleo desses alimentos.

Socorro Rápido

Uma reação alérgica grave pode ocorrer mesmo que a pessoa nunca tenha tido qualquer sintoma anteriormente. No caso de uma anafilaxia (ou choque anafilático), as consequências mais perigosas são o edema de glote e a falta de oxigenação, necessitando de tratamento com adrenalina, corticoides, bronco-dilatadores ou anti-histamínicos.

Independente da gravidade de sua alergia ao alimento, pesquise sempre o que está ingerindo. Questione, principalmente se você o faz para uma criança que ainda não sabe escolher o que deve ou não comer. Fique atento!

Referências

1Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar: 2007. Rev. Bras. Alerg. Imunopatol. – Vol. 31, Nº 2, 2008. Disponível em: http://abran.org.br/images/novembro2010/consensoalergia.pdf.

2Gupta RS, et al. The Prevalence, Severity, and Distribution of Childhood Food Allergy in the United States. PEDIATRICS Volume 128, Number 1, July 2011. Disponível em: http://pediatrics.aappublications.org/content/early/2011/06/16/peds.2011-0204.full.pdf+html.

3Reportagem Fantástico (26/10/2014): No Brasil, 350 mil crianças têm alergia à proteína do leite de vaca. http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2014/10/no-brasil-350-mil-criancas-tem-alergia-proteina-do-leite-de-vaca.html.

4Akagawa M, Handoyo T, Ishii T, Kumazawa S, Morita N, Suyama K (2007). “Proteomic analysis of wheat flour allergens”. J. Agric. Food Chem. 55 (17): 6863–70. Disponível em: http://pubs.acs.org/doi/abs/10.1021/jf070843a.

5http://www.cureceliacdisease.org/archives/faq/what-is-the-difference-between-gluten-intolerance-gluten-sensitivity-and-wheat-allergy

6http://www.academia.edu/7069723/Sequential_separation_of_lysozyme_ovomucin_ovotransferrin_and_ovalbumin_from_egg_white

7http://www.e-gastroped.com.br/march12/alergia_alimentar-consolidado_corrigido.pdf