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Como incluir a criança com alergia alimentar em um ambiente social formado por não alérgicos

Quando uma criança recebe o diagnóstico de alergia alimentar, seja nos primeiros meses de vida, seja em idade escolar, uma coisa é certa: a família toda passará por mudanças e precisará investir em um novo modelo de alimentação. Essa modificação na alimentação, por sua vez, é mais ampla do que parece: terá consequências no processo de interação social.

Como lidar com as dificuldades que surgem no caminho de uma criança diagnosticada com alergia alimentar? Quais os principais tipos de alergias existentes? Como preparar a criança para enfrentar esta problemática de maneira positiva? Que mecanismos e dicas podemos utilizar para otimizar o processo de inclusão social da criança alérgica, na escola, no seio familiar, nas festinhas e em outros ambientes?

Criança sorrindo

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É sobre estes tópicos que falaremos no decorrer deste artigo.

Alergias alimentares

Quando se fala em alergias alimentares é preciso saber diferenciar entre alergia e intolerância alimentar. Infelizmente, o fato de nem sempre termos uma informação clara se traduz no desconhecimento do quão grave e relevante é este assunto. Ocorre que muitos profissionais de saúde e familiares de alérgicos contribuem para a disseminação das falhas de entendimento ao confundir alergias e intolerâncias.

De acordo com Renata Rodrigues Cocco, alergologista do Hospital Albert Einstein:

“Apesar de alguns sintomas serem parecidos, outros são totalmente diferentes. As alergias apresentam sintomas que variam desde erupções cutâneas até problemas mais sérios como as anafilaxias (acometimento de múltiplos órgãos, com ou sem queda da pressão arterial e falta de ar, quadros potencialmente fatais). Já nas intolerâncias alimentares, os sintomas são mais relacionados ao trato gastrointestinal, com transtornos na digestão do alimento”1.

Alergia

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Outro ponto que diferencia a alergia da intolerância é o fator que desencadeia as reações de ambas: nas alergias o que promove o quadro reativo é a presença de alguma substância ou proteína presente no alimento, enquanto que na questão da intolerância faltam no corpo enzimas capazes de digerir certos tipos de carboidratos, caso, por exemplo, da lactose.

Dito isso, podemos definir a alergia alimentar como uma espécie de resposta exagerada dada pelo sistema imunológico quando se consome, ingere, inala ou apenas se entra em contato com certos alimentos, desencadeando reações e sintomas diversificados, tais como2:

  • Urticária
  • Inchaço
  • Coceira
  • Eczema
  • Diarreia
  • Dor abdominal
  • Refluxo
  • Vômito
  • Tosse
  • Rouquidão
  • Chiado no peito

Entre os principais alérgenos temos3:

  • Leite (de todas as espécies animais mamíferos)
  • Ovo
  • Glúten (presente no trigo, cevada, centeio e aveia)
  • Camarão e crustáceos
  • Peixe
  • Amendoim
  • Castanhas
  • Soja
Menina alérgica

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Além destes 8 alimentos, considerados os de maior incidência em toda a população, vários outros alimentos podem apresentar alergias, tais como:

  • Trigo
  • Amêndoa
  • Avelã
  • Castanha-de-caju
  • Castanha-do-brasil ou castanha-do-pará
  • Macadâmia
  • Noz
  • Pecã
  • Pistache
  • Pinoli
  • Castanha
  • Látex natural

Dieta da exclusão: do que se trata?

Uma das formas de controle e tratamento da alergia alimentar é a dieta da exclusão. Também chamada de dieta restritiva, ela é essencial para que a criança que sofre de alergia alimentar tenha melhor qualidade de vida, retirando de sua rotina alimentar alimentos e substâncias que possam desencadear uma reação alérgica e substituindo-os por outros alimentos para garantir a ingestão balanceada de nutrientes.

A adaptação à dieta passa por habituar-se à leitura de rótulos e por buscar informações mais precisas sobre os produtos, muitas vezes acessando o SAC do fabricante. Com o tempo, tais práticas se tornarão comuns e cotidianas dos familiares4.

Veja algumas dicas para que essa transição para a dieta da exclusão seja mais tranquila:

  1. Procure aceitar a alergia da criança e encarar a dieta com comprometimento e de maneira criteriosa, afinal, o bem-estar físico e também social do seu filho dependerá muito disso.
  2. Faça uma lista e descubra com ajuda do médico todos os alimentos que deverão ser excluídos do cardápio.
  3. Casal lendo rótulo

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    Acostume-se a ler os rótulos, a obter o máximo de informações e não hesite em acessar o Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) da empresa fabricante quando necessário.

  4. Encare a dieta como uma alternativa, como algo que dá prazer e abre novas possibilidades de sabores, pratos e opções mais saudáveis – opções que vão além de uma alimentação baseada apenas em produtos industrializados. Com o tempo, você irá perceber que, na verdade, a dieta de exclusão é uma dieta de inclusão de novos hábitos, alimentos e receitas mais saborosas.

Contaminação cruzada

Mas não basta tomarmos todos esses cuidados, se deixarmos de lado um detalhe que também faz toda a diferença para a saúde e o bem-estar da criança com alergia alimentar: o risco da contaminação cruzada.

A contaminação cruzada é a transferência de partículas ou traços do alérgeno de um alimento para outro. A contaminação pode ocorrer por exemplo, caso um produto sem alergênicos seja processado no mesmo equipamento utilizado para o processamento de um produto que contenha alergênicos. Tal contaminação pode ocorrer em vários momentos: durante o plantio, colheita, armazenamento, beneficiamento, industrialização ou no transporte do produto.

Daí a importância fundamental da leitura de rótulos para uma checagem mais segura, uma vez que mesmo que se higienize os equipamentos, resquícios mínimos de substâncias alergênicas poderão, de maneira involuntária, disseminar a contaminação2.

De acordo com a resolução de RDC n° 26/2015 da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), uma indústria que processa na mesma linha de produção vários grãos como soja, trigo, lentilha e outros e que não consegue comprovar ausência desses alimentos, deverá inserir no rótulo do produto a inscrição: Alérgicos: pode conter (nomes comuns dos alimentos que causam alergias alimentares)5.

Já no ambiente doméstico, para que a contaminação cruzada não ocorra, é preciso antes de tudo, tornar o ambiente da cozinha o mais seguro possível6. Dentre os detalhes, os utensílios domésticos utilizados na cozinha merecem maior atenção. O simples fato de determinado talher ou vasilha ter entrado em contato com algum alimento alergênico já é capaz de propiciar uma reação na criança, caso ela entre em contato com o utensílio contaminado.

Cozinhando

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Para evitar esse risco, você pode seguir algumas dicas, como:

  1. Trocar pratos, talheres, esponjas, copo de liquidificador, potes, etc., por outros sem uso.
  2. Reservar utensílios para uso exclusivo da criança alergênica.
  3. Utilizar cores diferentes nestes utensílios exclusivos para identificá-los mais facilmente.

Inclusão social

É essencial que procuremos formas de incluir socialmente a criança nos mais diversificados contextos. Para que esta inclusão seja bem-sucedida, o primeiro passo é trabalhar a questão da alergia de maneira sincera e natural dentro de casa e com toda a família.

Ilustração

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Há alguns pontos que devemos considerar no tocante à alergia alimentar. Em um primeiro momento7, quando a criança se encontra na mais tenra idade, nos seus primeiros anos de vida, a exclusão social decorrente da alergia é sentida principalmente pelos pais. Conforme os anos passam, a criança começa a sentir os efeitos da sua alergia, o que irá refletir-se diretamente em suas relações sociais. Daí a necessidade de conversar com a criança de forma transparente sobre a sua condição, e não tornar a alergia um assunto tabu; ao contrário, deve-se passar o máximo de informações para que a criança não se sinta inferior, menosprezada ou excluída.

Para favorecer a inclusão social da criança:

  1. Não supervalorize a alergia: procure agir de forma natural, sem extremismos, para que a criança não seja superprotegida.
  2. Converse com a criança, explique os motivos pelos quais ela não pode consumir determinados alimentos e mostre a ela opções e alternativas ao alimento excluído.
  3. Busque o equilíbrio e não foque na problemática, mas nas soluções. Na escola, por exemplo, onde muitas vezes será necessário conversar com diretores acerca do problema de saúde da criança8, busque soluções em conjunto.
  4. Esclareça as pessoas acerca da alergia alimentar: sabemos que o hábito do compartilhamento de alimentos é bem intenso em muitos países e para muitas pessoas. Seguindo este viés, é fato que muitas pessoas poderão se ofender quando oferecerem alimentos à criança alérgica e ela recusar. Oriente as pessoas sobre o assunto, esclareça que não se trata de “falta de educação” ou “frescura”, mas sim de uma questão de saúde, sem dramas ou extremismos9.
  5. Atente-se também ao fato de que a estratégia usada para crianças mais novas (em creches ou pré-escola – 0 a 4 anos) é diferente de crianças em idade escolar (5-6 anos em diante) que por sua vez é diferente de crianças mais velhas (a partir de 10-11 anos) que já estão chegando na adolescência. A dinâmica de interação social é diferente para cada grupo e, portanto, a estratégia usada para garantir a inclusão das crianças alérgicas também deve ser diferente.
Criança comendo laranja

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Lidando com a alergia alimentar

Há sobretudo, três contextos principais que podem ser fonte de estresse quando se fala em socialização das crianças alérgicas:

  • Ambiente familiar
  • Ambiente escolar
  • Festinhas infantis

Vejamos algumas maneiras e dicas para que se possa agir da melhor maneira possível em cada uma dessas situações.

Em família

Sabemos que o momento em que uma criança é diagnosticada como portadora de alergia alimentar poder ser traumático, principalmente para a família que costuma ser pega de surpresa.

Inicialmente, é comum a família não aceitar e negar o diagnóstico. É preciso superar esta primeira fase, chamada período de negação7, para posteriormente lidar com o novo âmbito que surge então no cerne do lar.

Criança com intolerância a lactose

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Obter informações, tanto com profissionais da área da medicina, grupos de apoio, conversar e trocar ideias com outras mães e pais de crianças alergênicas, bem como participar de grupos relacionados ao tema, mesmo em redes sociais, é uma das ferramentas que temos disponíveis para facilitar o acesso à informação e a inclusão da criança no contexto familiar7.

É importante também despertar na família o sentimento de empatia, para que todos possam se colocar no lugar da criança e dos pais, no sentido de compartilhar o mundo um do outro. Marcar um dia para que todos cozinhem juntos, trocar receitas, desmistificar a falsa ideia de que bolos sem ovos e leite (por exemplo), são ruins, e despertar nos outros integrantes da família a abertura para experimentar tais receitas e a compreender melhor o universo dos alergênicos é fundamental.

Na escola

Fora do lar, o primeiro ambiente estranho à criança é o contexto escolar, cuja heterogeneidade dos sujeitos é ainda mais sentida, e a alergia alimentar é apenas mais uma destas diferenças.

É neste momento que muitas crianças passam a sentir os efeitos de se ter alergia alimentar, e caso não tenham uma preparação que venha da base familiar, poderão sofrer com problemas de autoestima baixa e até mesmo segregação e exclusão10.

Na escola

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Neste sentido, é preciso estar atento a algumas barreiras a serem superadas para lidar com a questão da alergia de uma maneira mais positiva. Há várias situações escolares que podem surgir como obstáculos no caminho para a inclusão. Estes obstáculos criam uma infinidade de sentimentos e emoções para os alunos alérgicos, o que pode prejudicar sua interação com outros estudantes, bem como seu desempenho nos estudos.

Antes de escolher a escola para seu filho, é preciso fazer alguns questionamentos. Por exemplo: A escola está preparada para lidar com alunos alérgicos? Quais procedimentos a instituição de ensino costuma adotar quando algum aluno tem reação alérgica? Há infraestrutura na escola, como a presença de enfermeiros em caso de uma emergência? Estes são apenas alguns dos questionamentos que devem ser feitos antes de escolher a escola na qual seu filho passará pelo menos um turno do seu dia11.

Vejamos algumas dicas para lidar com a alergia alimentar na escola:

  1. Converse com os professores e certifique-se de que seu filho seja incluído na mesa de lanche escolar com as demais crianças, afinal, o simples fato dela necessitar de alimentos específicos não deve significar que seja afastada dos colegas.
  2. Oriente sempre a criança alérgica sobre sua condição e o que pode acontecer caso ela quebre as regras que irão proteger sua saúde, ou seja, caso ela aceite de um coleguinha, por exemplo, algum alimento ao qual ela tenha reações alérgicas ao ingerir12.
  3. Atente-se também ao material escolar e a seus fatores alérgicos, como massinha, giz de cera, tinta, entre outros8.
  4. Verifique se a escola cumpre a lei que determina o provimento de alimentação escolar segura aos alunos portadores de estado ou de condição de saúde específica. Embora a lei não fale em alergias alimentares, abrangendo uma variedade de restrições alimentares que ultrapassam casos de alergia, as crianças alérgicas estão incluídas por necessitarem de “atenção nutricional individualizada” e terem “demandas nutricionais diferenciadas” 13, 14 . Vale enfatizar, entretanto, que a implementação dessa lei ainda não é prática generalizada nas escolas e, portanto, a melhor prática continua sendo negociar com a administração da escola, fiscalizar e debater caso a caso.
Intervalo do lanche

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Em festinhas infantis

Outra situação fundamental para a interação social da criança são as festinhas infantis. Algumas dicas poderão auxiliar na inclusão das crianças de maneira natural, como por exemplo:

  1. Procure conhecer o cardápio antecipadamente, e caso não haja nenhuma opção para a criança alérgica, faça para ela um lanche próprio, ou até mesmo contribua com algum pratinho de guloseimas que ela possa saborear com as demais crianças8.
  2. Se for o caso, leve o bolo, o suco sem corante, e tudo o que for necessário, para que a criança não se sinta de lado na festinha. Converse antes com a mãe do aniversariante ou com os organizadores da festa a respeito15.
  3. Lembre-se também da questão dos traços que podem contaminar os talheres e utensílios. Leve alguns sem uso para a criança alergênica utilizar na festa.
Festa aniversário

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Seguindo estas sugestões e dicas, com certeza a criança irá sentir-se incluída socialmente e irá fortalecer sua autoestima, não sendo superprotegida, tampouco colocada de lado, mas irá encarar sua situação com responsabilidade e de maneira mais natural.

Tem dúvidas ou quer contar a sua experiência? Compartilhe com a gente nos comentários!

Referências
1 Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein. Entenda a diferença entre alergia e intolerância alimentar.
2 Põe no rótulo. Cartilha da Alergia Alimentar.
3 Food Safety Brazil. Publicada resolução sobre Rotulagem de alimentos que causam alergias alimentares.
4 Menu Bacana. A dieta de exclusão de alimentos alergênicos.
5 Food Safety Brazil. Como rotular alergênicos de acordo com a RDC 26/15.
6 Macetes de mãe. Alergia alimentar: adaptação, inclusão, superação.
7 SanLuna’s. Psicologia e alergia alimentar.
8 Blog FAMESP. Crianças com alergias alimentares x Inclusão Social.
9 The Creativity Post. Social consequences of Food Allergy.
10 Allergic Living. Food Allergy at School: Avoiding Shame & Segregation.
11 Allergic Child. Food Allergy & Schools.
12 Instituto Girassol. Alimento, afeto e socialização da pessoa com alergia alimentar: O problema da escola.
13 Legislação. Lei 11.947.
14 Legislação. Lei 12.982.
15Slideshare Linkedin. De mãe para mãe – Sobre crianças com alergia alimentar.