Alergias e Intolerâncias • Alergias e Intolerâncias • Nutrição Especializada

A alergia alimentar é uma sensibilidade individual a uma ou mais proteínas que compõem determinados alimentos. Essas proteínas quando absorvidas pela mucosa intestinal desencadeiam, em indivíduos alérgicos, reações imunomediadas, ou seja, dependentes de mecanismos imunológicos1. A alergia à proteína do leite de vaca, muito conhecida pela sigla APLV e é a alergia alimentar mais comum da faixa etária pediátrica, com prevalência de até 6% em crianças menores de 3 anos de idade1.

As manifestações clínicas incluem acometimento cutâneo, gastrintestinal, respiratório e, mais raramente, as manifestações cardiovasculares, incluindo choque anafilático.

A proteína do leite de vaca é o alérgeno alimentar mais comum por ser muito consumido, mas também pelo seu potencial alergênico1. Ele chega a possuir mais de vinte tipos de frações proteicas, mas apenas algumas têm importância alergênica especial1. De acordo com vários estudos, a beta-lactoglobulina, alfa-lactoalbumina e as caseínas são as proteínas que mais ocasionam as reações alérgicas. E você sabia que a beta-lactoglobulina não existe normalmente no leite humano? Além disso a a caseína forma apenas 27% do teor de proteínas no leite humano enquanto no bovino essa proporção sobe para no mínimo 76%.2

Entenda a alergia alimentar

A alergia é uma reação do sistema imunológico mediada ou não por um anticorpo chamado imunoglobulina E, ou IgE. Os anticorpos são estruturas responsáveis por se ligarem aos alérgenos (antígenos) e desencadearem respostas imunológicas. A diferença entre ser mediada ou não por IgE é que a primeira ocorre até duas horas após a exposição à proteína, enquanto que a segunda pode ocorrer dias após a exposição1,2,4.

A reação alérgica funciona da seguinte maneira: o antígeno ou alérgeno (sempre uma proteína) é detectado pela IgE, que encontra-se fixada a receptores de mastócitos e basófilos. No caso de um contato repetido com a proteína alergênica o organismo pode considerá-la nociva e é capaz de reagir contra ela liberando mediadores vasoativos, que induzem as manisfestações clínicas de hipersensibilidade imediata, como: constrição dos brônquios (asma), eczema (vermelhidão na pele), edema (inchaço) ou, a mais grave, anafilaxia, uma resposta alérgica muito intensa que pode causar queda da pressão, taquicardia e angioedema. O angioedema exige socorro rápido, pois pode evoluir rapidamente para o fechamento das vias aéreas (edema de glote) e até mesmo a óbito1,2,4.

Muitos bebês são introduzidos desde cedo ao leite de vaca ou a fórmulas infantis baseadas neste leite, em substituição ao leite materno. Essa parece ser a grande causa do aumento da incidência da APLV.

Como posso evitar a APLV em meu filho?

Em relação aos fatores relacionados à dieta, estudos mostram que o aleitamento materno exclusivo, sem introdução de leite de vaca e de fórmulas infantis à base de leite de vaca durante os 6 primeiros meses de vida e se prolongando até os 12 meses tem sido eficazes na redução do desenvolvimento de alergias alimentares5.

O ideal seria evitar introduzir o leite de vaca antes de 1 ano de idade. O organismo do bebê ainda está imaturo e não é capaz de lidar com estruturas proteicas tão grandes.

Como é feito o diagnóstico?

Inicialmente o médico questionará sobre os sintomas citados acima, e então fará um exame clínico minucioso. Uma dieta de exclusão por um período curto de tempo (2 semanas) com consequente melhora do quadro clínico pode ser um sinal de APLV6.

Testes cutâneos de leitura imediata, mensuração da IgE específica e a provocação positiva (padrão-ouro) podem ser utilizados no diagnóstico. Entretanto, é importante saber que o teste de provocação positiva deve ser evitado quando os sintomas clínicos da criança forem muito evidentes, por exemplo, em casos de anafilaxia6.

Meu filho foi diagnosticado com APLV. E agora?

A dieta de exclusão da proteína do leite de vaca deve ser iniciada o quanto antes, tanto pela criança quanto pela mãe, em caso de aleitamento materno exclusivo, seja em casos de IgE específica positiva ou negativa. As mães devem ser orientadas a retirar todo o leite de vaca e derivados da sua alimentação8,9,10. Entretanto, o aleitamento materno é fundamental para a criança. Mesmo para bebês com reações e diagnóstico comprovado de alergia a proteínas do leite, a mãe pode na maioria dos casos manter o aleitamento se retirar os laticínios de sua dieta10.

O importante é fazer a retirada do leite e derivados. Para bebês que ainda não foram introduzidos com alimentos sólidos, existem fórmulas proteicas extensamente hidrolisadas. Para aqueles que já têm mais idade, existem alimentos que são igualmente ricos em nutrientes8,9.

Veja a lista de alimentos ricos em cálcio:

  • Agrião
  • Rúcula
  • Espinafre
  • Brócolis
  • Couve
  • Ameixa seca
  • Gergelim
  • Amêndoas
  • Aveia
  • Sardinha

Cuidados especiais:

– Atente para produtos de panificação que, em sua maioria, levam leite na preparação.

– Dependendo da gravidade da alergia alimentar de seu filho, não hesite em perguntar em restaurantes e lanchonetes se determinada preparação foi feita no mesmo recipiente que laticínios.

– Alguns produtos como balões de festas, giz e cosméticos, podem conter resquícios de proteínas do leite e, em crianças mais sensíveis, desencadear as reações de pele ou respiratórias.

– Preste atenção ao rótulo dos alimentos industrializados. Proteínas do soro do leite (whey protein) podem não conter caseína, mas contêm as outras proteínas e isso não vem descrito no produto.

– Os leites vegetais feitos a partir de amêndoas, arroz, castanhas são ótimas opções também.

– Amplie a gama de alimentos consumidos, crie novas receitas e descubra novos sabores. Fortalecer o sistema imunológico da criança pode ser a chave para reduzir sua sensibilidade ao leite.

Conclusão:

Não deixe de procurar um médico caso tenha se identificado com os sintomas que leu aqui ou os notou em seu filho. Ele é o profissional mais indicado para auxiliar qual tratamento será aplicado.

Fontes:

1Solé D et al. Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar: 2007. Rev Bras Alerg Imunopatol 2008, 31 (2): 64-89.

2Allergy-Immunology Notes – Cow’s Milk Allergy

3Dr. Paulo Maciel. Alergia ao Leite de Vaca.

4Zeppone SC. Alergia à proteína do leite de vaca (APLV): uma perspectiva imunológica. Dissertação de Mestrado. Araraquara, 2008.

5van Odijk J. Breastfeeding and allergic disease: a multidisciplinary review of the literature (1966-2001) on the mode of early feeding in infancy and its impact on later atopic manifestations. Allergy. 2003 Sep;58(9):833-43.

6Como diagnosticar a alergia à proteína do leite de vaca. Laboratório Fleury.

7Lins MGM. Teste de desencadeamento alimentar oral na confirmação diagnóstica da alergia à proteína do leite de vaca. J. Pediatr. (Rio J.) vol.86 no.4 Porto Alegre July/Aug. 2010

8Alimentos que substituem os nutrientes do leite. Site Mais Equilíbrio.

9Terapia Nutricional no Paciente com Alergia ao Leite de Vaca. Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral, Sociedade Brasileira de Clínica Médica e Associação Brasileira de Nutrologia. Jul/2011.

10Cow’s Milk Allergy